lapso freudiano

Amor Fati

     O erro atrela se ao meu ser, e de raiva venho me alimentando a tanto tempo que amor me causa ânsia. Não é por mal, é minha natureza, e mais uma vez me vejo flutuando em águas turvas esperando que a luz da lua também reflita em mim, mais uma vez eu quase consegui contar todas as estrelas e desenhei com elas um sorriso… e mais uma vez eu estou só.

     Algo mudou, mesmo com tantas situações com o mesmo fim ao qual estou fadado pela maldição que há tanto me foi entregue. Uma sensação como a de quando se embriaga demais e já não se tem mais nada no estômago, aquela ânsia com um refluxo seco que te faz sentir como se fosse virar do avesso. Já não tenho mais nada, já não tenho lágrimas, já não tenho gritos, já não tenho palavras… mas essa dor me atravessa de dentro para fora.

     O amor é a moeda que não tive para Caronte, e estou condenado por isso a vagar em tanta raiva que há em mim, procurar meu preço pela redenção, e contigo quase consegui. Quase reluziu em minhas mãos as moedas que viraram folhas secas, e talvez não importe mais o que houve, o que sinta, já não sinto mais nada de mim além das suas lembranças que sibilam em minha cabeça e não tenho onde guardá las, e nem como, já que venho destruindo tudo o que tento salvar por agarrar com tanta força as cinzas das folhas e te ver se esvair por entre meus dedos.

     Nada mudou, após todos esses anos sem exteriorizar em palavras o meu ódio por mim e minha dor por eventualmente esquecer quem sou, ou por não aceitar que não sou algo bom, nada mudou, mas estou tão cansado…

B

Hoje estou mais pra algo como um emaranhado de cansaço, cheiro de cigarro e dor. Não sei por que tento, não sei por que ainda me apego a isso… bom tempo que não posto, sempre tirei minha inspiração pra isso das minhas chagas mas, em um certo ponto, são demais pra se extrair palavras disso, mais fácil seria gravar um grito… Eu não como, não durmo, não penso… ainda me pergunto o que me faz tão diferente, tipos como eu deveriam ser mais sozinhos, mais independentes, mais cientes de que causam repulsa, de que as pessoas não são nada mais do que querem ser com cada um e que, com eles, não será como são com as outras pessoas, com seus laços afetivos e com quem lhes faz bem. Sou errôneo, sou “otário”, “me sinto uma pessoa desagradável só por te aguentar”, e enquanto minha cabeça explode em pensamentos  sem forma, o mínimo que consigo expressar em palavras de tudo o que eu queria me livrar é demais pra ti, “ninguém se importa”, enquanto quem lhe faz bem com afagos por sua partida se importa, por que seria estranho que eu também o fizesse? sei lá… gosto de você, de uma maneira que sempre acaba mal, da maneira como qualquer outro gostar, sempre acaba. E agora acho que te odeio, com minha propensão ao ódio  junto a expectativas de quem “não se importa” e, mesmo assim, te esperei… por todo o dia do meu aniversário te esperei, e depois disso… demorei a lembrar que dia é hoje, demorei a lembrar que as coisas são assim. E lembrei de tudo… lembrei que você vai embora, lembrei que eu não importo, mas não me esqueço do que sinto por você, e nunca me acostumo com quão grande e inexplicável é essa tristeza que sinto e, ainda assim, da minha coragem pra tentar… Acho que dói tanto que comecei a gostar.

Soul – mate

E, depois de tanto tempo, aqui estou eu, novamente. O mesmo olho vermelho de visão embaçada, baixo, ardendo pelo brilho da tela de um computador no mesmo quarto escuro e vazio, tão bagunçado quanto os pensamentos que me esforço a manter sãos, um cheiro de poeira e algo mais, abafado, acho que sou eu. Não há mais seus fios de cabelo pelo meu colchão, guardei algum, eu acho, sei lá. Não há mais seu cheiro, o seu xampu no meu travesseiro, nas minhas roupas… Só eu, meu cheiro com café, ao mesmo soothsayer e os estalos do ventilador girando.

Já perdi muito nessa vida, já estraguei muitas coisas, já estraguei tudo… Perdas sempre geram falta, saudade, mas logo superamos. Nos damos conta de que nada é pra sempre e percebemos que o máximo que podemos fazer é nos agarrar como podemos no que nos faz bem e só esperar, e nem sequer ousar nos perguntar, pelo quê ?

E agora olho em volta, no mesmo estado deplorável de solidão que sempre estive, nada novo, talvez não tivesse que dar certo desde o começo ou por algum momento deu, já perdi muito de mim me esforçando nos porquês de tudo, foi, e só. E só de pensar nisso tudo eu já entro em pânico, não sei o que houve, às vezes até esqueço como acabou, se eu vi como acabou. Eu só estava lá, depois tive que ir embora.

E aí, sem rumo qualquer, quis me perder, e me perdi. Por 3 longos meses, anos, sei lá, me perdi em meio a tudo o que não queria mais, de tudo o que me afastara. Não sei se deixei minha bondade contigo ou se sempre fui assim, não me lembro bem de como era antes de você, queria que seu sorriso fosse o meu primeiro sopro de vida, explicaria porque não me sinto mais vivo agora que não o tenho.

Tanto, queria poder te dizer tanto, queria te ver de novo, queria ouvir sua voz, mesmo que blasfemasse todo o ódio que lhe causei contra minha alma, ou só que arrancasse até a última partícula sua de mim, até o último pensamento que me atormenta todos os dias e, agora, vejo de tão longe você se tornar algo que não conheço, desde quando ainda estava do seu lado, não sei se eu quem idealizei em ti o que esperava de perfeição em uma única pessoa de uma espécie inteira, minha própria, que tanto desprezo, ou se algo aconteceu, algo que eu não vi, não pude evitar, não tive o controle e, agora, é tarde demais, talvez sempre tenha sido.

E é natal, não sei o que deveria significar pra mim, não sei se já passei algum como se deveria passar, se é que há uma maneira certa de agir em cada feriado. E aqui estou eu, remoendo toda a falta que você me faz, ou a falta de algo que ficou com você, algo que eu escolhi lhe dar, que te escolhi, somente a você, para carregá lo consigo, para sempre, mesmo que o tempo apague de ti a memória de tudo relacionado a mim, sempre carregarei comigo o seu sorriso, o que mais me trouxe paz nessa vida, porque escolhi que ficasse com você, de tudo o que criei em mim, o que mais me faz humano e, por mais que eu quisesse que fosse diferente, aceito e temo desesperadamente pelo preço que pagarei por, se ainda sim conseguir, quebrar a promessa que lhe fiz.

E você estava certa, eu morrerei sozinho, e eu sei disso… E desde que disse isso não me foge das noites de sono os sonhos nos quais dou minha vida por você, talvez eu seja um “derrotado” que não soube como superar o fim de um relacionamento, é vero ou, talvez, depois de todas as noites em que passo horas afundando minha cabeça no travesseiro pra tentar abafar os pensamentos que tenho de ti, tenha percebido em cada segundo depois que durmo que talvez seja até melhor morrer sozinho, ou a única maneira de dar uma utilidade maior a isso seja, por esse mesmo sorriso, que fosse ao seu lado, ou por você.